quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Os Dióscuros

No côncavo espaço da santidade,
emerge, vinho muito doce,
a figura de dois adolescentes...
Gêmeos de carne e potência,
Patilham risos e gestos,
esgares e indecência.
Ora abandonados pela infância,
da madureza inda inscientes,
sua tenra beleza transita
no duplo espaço da incerteza.
O riso puro é quase um acinte,
à mão que a agita o cetro, à realeza,
O anjo tutelar que os protege,
desvia o olhar para a moldura
branco que os contém, tanto neles
a vida se detém e se depura.


Poema que nunca lerás

Quando tu te ias, permaneciam
miríades de partidas.
Que mal reparavas na tarde
que, transparente, nos envolvia.
Depois, as volutas do tempo
Dissolviam a noite, de perfumes luzidia,
anúncio expectante, mais te ias...
Com nossos casacos trocados,
nem pressentíamos, celerados,
que a feroz solidão volvia
para nós sua fauce fria
e preparava bote mortal
à nossa ingênua alegria. 
E do tempo em que tu  te ias,
ficou tudo e nada: poesia.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Fragment 1



r rot root rotar rota tor or


Vermelho

          Inspeciono a palavra vermelho e recolho Verme, Hermes, Melhor, Velho, Verve. Tudo é tinta rubra no papel em que a pena traça sua presença? Especulo. Espéculo. A palavra vermelho seria verde. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!




Fragmento 1 - 24/04/2016

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Caos de cal e cimento, abandono a casa antiga a invasores vociferantes. A primavera se insinua em caules que tentam florescer e folhas que o vento arrasta. Sou só espera, tempo de refolhos, recolhimento e angústia fluida. Manhãs que esperam chuva, parti para longe!


segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Solidão


As raposas têm sua cova,
as aves do céu seu ninho,
mas o filho do homem
não tem onde
reclinar
a cabeça?

Evangelho de São Lucas, 9, 58

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Domingo e ausência




Nuvens percorrem o céu como no dia em que partiste

O frio e a chuva perfazem o percurso de distância e água

Pesa sobre meu peito um bloco de tristeza e mágoa

Calo tua ausência em tudo o que é aparência e despiste.


Talvez seja apenas o começo e talvez seja demais

Do destino vislumbro o rosto por detrás da máscara

Os dias se sucederão no vazio de tua passagem áspera

Não sei explicar por que, mas aos domingos dói mais.

24/25 de agosto de 2009

Imagem: Edvard Munch, "Separação"