sexta-feira, 24 de abril de 2009

Santa Teresinha

A porta entreaberta deixa entrever apenas a fímbria do hábito marrom das carmelitas. No chão, aos pés da virgem, jaz uma fita, estampada com pequenas flores azuis sobre um leve fundo rosa. Uma ondulação tênue perpassa o corpo da fita e as florinhas parecem movimentar-se em uma superfície líquida. Adivinho, nesse ondular de lago calmo, os movimentos de Teresinha que, reclinada sobre a escrivaninha, compõe a história de sua alma. Imagino então os dedos rosados da mão direita pressionando a pena de ganso afiada, em cuja ponta reverbera o negrume da tinta. Vejo a pele translúcida dos dedos que, a cada esforço da pena sobre o papel, torna-se esbranquiçada pelo sangue que reflui. É assim que imagino o ato de escrever de Teresinha, sangue em fuga em uma madrugada alvacenta de atmosfera azul e rosa. Ali, um coração espinhado descobre a vocação do amor infundido em todas as coisas. Doutora em Amor, Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face escolhe tudo: não quer ser santa pela metade.

Imagem: Foto mortuária de Santa Teresa do Menino Jesus

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