sábado, 31 de janeiro de 2009

Com cacos de telha, raspei o pus das feridas. Quando meus filhos foram engolidos pelo desastre, ergui o punho num gesto de júbilo. Meus bens foram distribuídos entre aqueles que aviltaram minha memória. Meus ossos repousaram junto às ossadas dos novilhos devorados pelos lobos. Então, quando a fímbria do manto divino tocou meu nome sonoro, Deus se lembrou de minha justiça e me sepultou para sempre na região sombria da incompreensão. (09/08/05)

(ilustração para o Livro de Jó - William Blake)

Ninhada



A roda inexorável refez o ciclo de poeira. No seu centro metálico, trovões goravam os ovos do acaso. Desviei meu olhar do espetáculo da consumação de uma luz incapaz de projetar sombra. Quando ergui novamente os olhos, uma espécie de ó indeciso pairava sobre o pesadelo esquecido. Voltei a casa, inebriado ainda pelo cheiro de bosta de galinha.

Basalto


Pedras pretas sob meus pés de menino. Quando morriam aquelas pedras exalavam uma poeira amarelada e se deixavam decompor ao sol, num êxtase avermelhado. Eu menino não compreendia ainda como cresciam ali o café e a cana.

O Túmulo

Toquei o caos com um dedo trêmulo
Ouvi o gemido da derrocada de tudo
Lambi no sabão a poeira das estrelas extintas
Meti meu dedo no funil das esferas turbilhonantes
Um signo indecifrável foi gravado em minha fronte pensa
Engoli as geleiras quando se lançavam do pólo
Nos cantos dos meus lábios, o gelo se liquefez
Pisoteei meus olhos numa aflição de cavalo domado
Amarrei meus sapatos com cordas de um violino mudo
Adocei meu chá com o pó dos antepassados
Desdichado, meu olhar turvou-se ao sol da melancolia
Mas ainda não lapidei o túmulo de meu pai.
(Melancholia - Albrecht Dürer)

Experimento

Espáduas de neblina sobre a luz de uma conveniência secular. Leis da perspectiva. Rebobino o fio invisível de um gerador de espantos. Ao fazer girar o ímã dos propósitos inabaláveis, um tremor de esfera percorre meu corpo de aço polido. Enfim fixo o influxo do ixium. Estou nu na luz que baixa e me refunde.

Pedra e Magma



Quando? indago à tarde exaustiva. E o eco do delírio me responde com outra indagação não menos absurda: quem? Olho meus dedos resignados. tempo refolhado em tristeza esparsa. Meus pés avançam nas pedras da calçada, magma frio. Penetro na bruma, sua carne é memória e excitação. Uma palavra aflora nos meus lábios ressequidos: vórtice.

Escape



Na voragem dos dias, o infinito nunca é o presente. Repara na areia absurda que os relógios esquecidos depositam no fundo das gavetas. A correição das horas é um sinal.