sexta-feira, 27 de março de 2009

Apolo fazendo música com Jacinto e Ciparisso (d’après un souvenir de théâtre)


Nem fiquei nem parti. Apenas guardei o beijo que a atriz oferecia ao publico indiferente. Miserável que aceita o pão duro da rejeição, refiz em festa o ato ofertativo e vi, entre as colunatas e a escada, uma multidão de sátiros que invadia o saguão, em traje de gala, contidos como se acorressem a uma platéia sinfônica. À saída, dois ciprestes choravam ainda a morte do cervo sagrado. E Apolo fugiu apressado, entre os jacintos que sangravam à sua passagem, deixando um rastro vermelho na linha do horizonte. O beijo da atriz tornou-se uma pétala seca que sussurrava palidamente: os Deuses já não são!
Imagem: Apolo de Nadir Afonso

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