segunda-feira, 25 de abril de 2016

Vermelho

          Inspeciono a palavra vermelho e recolho Verme, Hermes, Melhor, Velho, Verve. Tudo é tinta rubra no papel em que a pena traça sua presença? Especulo. Espéculo. A palavra vermelho seria verde. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!




Fragmento 1 - 24/04/2016

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Caos de cal e cimento, abandono a casa antiga a invasores vociferantes. A primavera se insinua em caules que tentam florescer e folhas que o vento arrasta. Sou só espera, tempo de refolhos, recolhimento e angústia fluida. Manhãs que esperam chuva, parti para longe!


segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Solidão


As raposas têm sua cova,
as aves do céu seu ninho,
mas o filho do homem
não tem onde
reclinar
a cabeça?

Evangelho de São Lucas, 9, 58

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Domingo e ausência




Nuvens percorrem o céu como no dia em que partiste

O frio e a chuva perfazem o percurso de distância e água

Pesa sobre meu peito um bloco de tristeza e mágoa

Calo tua ausência em tudo o que é aparência e despiste.


Talvez seja apenas o começo e talvez seja demais

Do destino vislumbro o rosto por detrás da máscara

Os dias se sucederão no vazio de tua passagem áspera

Não sei explicar por que, mas aos domingos dói mais.

24/25 de agosto de 2009

Imagem: Edvard Munch, "Separação"

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Segmento de curva

Escritura ordem caos desordem se isso. Sinais externos remédios amontoados tarefas visão de fora. O que devo linha reta procrastinação. Eu está na platéia minha vida passa e eu nem aí estou. Acho concordo recordo com ele, não senhor minha vida me faz perder muito tempo de vida esforço coisas mãos dedos coração sexo pernas pés chão. 

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Por que as mães e os amores se vão em maio









Por que as mães e os amores se vão em maio

Quando o inverno se insinua e nuvens ligeiras

Percorrem o céu noturno e a falta essencial

Se revela na cama desfeita, no guarda-roupa vazio

Na toalha que pende e rescende ao último banho.

 

Por que a tristeza tem que embalar objetos

Recolher os restos,  conformar-se ao que não foi

E percorrer os cômodos  silenciosamente

À procura de vestígios de alguma presença

Que agora é apenas  memória e solidão.

 

Por que as mães e os amores se vão em maio

Quando o tempo nos lembra de que nada refaz

O percurso do possível  e fica apenas a imagem

Do último afago, do calor das mãos.  Miragem

A calar a falta em palavras que já não são.

15 de maio de 2009, 22:49h

Imagem: Melancolia, de Edvard Munch

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Santa Teresinha

A porta entreaberta deixa entrever apenas a fímbria do hábito marrom das carmelitas. No chão, aos pés da virgem, jaz uma fita, estampada com pequenas flores azuis sobre um leve fundo rosa. Uma ondulação tênue perpassa o corpo da fita e as florinhas parecem movimentar-se em uma superfície líquida. Adivinho, nesse ondular de lago calmo, os movimentos de Teresinha que, reclinada sobre a escrivaninha, compõe a história de sua alma. Imagino então os dedos rosados da mão direita pressionando a pena de ganso afiada, em cuja ponta reverbera o negrume da tinta. Vejo a pele translúcida dos dedos que, a cada esforço da pena sobre o papel, torna-se esbranquiçada pelo sangue que reflui. É assim que imagino o ato de escrever de Teresinha, sangue em fuga em uma madrugada alvacenta de atmosfera azul e rosa. Ali, um coração espinhado descobre a vocação do amor infundido em todas as coisas. Doutora em Amor, Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face escolhe tudo: não quer ser santa pela metade.

Imagem: Foto mortuária de Santa Teresa do Menino Jesus