quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Lendo Gabriel Marcel ao teu lado


Enclave, mas enclave movediço,
Uma criança brinca em teus olhos interrogativos
Vulnerável, na clausura viva da ferida,
entre o silêncio e um leve esgar de lábios.
O não dito grita a contradição de tudo,
E o melhor de nós não nos pertence.
O gesto da mão que pousa no jeans escuro,
Ao abrigo da crítica e da dureza,
Grita a falta que nos arrasta
À região onde gravita um certo eu
Que julgamos habitar em nós.
Mas quando a noite se insinua na paisagem,
Teu olhar, em rápida mirada,
Fixa o parapeito da janela.
Vida Viagem Vaga.

(Foto de Gabriel Marcel, à qual apliquei um efeito de luz)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Fraqueza


Onde se refugiaram as algas neste mar de escolhos? Em que túnel escuro, margem estelar do esquecimento, vociferaram as palavras que não ouvi? Quem pôde oferecer um sacrifício incruento no leito em que fui gerado? Nunca pude contemplar o que se formava em mim quando o turbilhão de água e sonho girou em sentido anti-horário. Em razão disso, trago as mãos revestidas de uma luva de pedra, inanição do inane.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Contrição


A grande rocha verteu seu canto de água e limo. Ajoelhei-me diante do murmúrio inaugural e toquei a superfície da água fria. Um relâmpago verde percorreu minha espinha e fixou meus pés na pele do solo de folhas mortas. Transito no transitório, mastigo o barro de que sou feito. Num átimo tenho a impressão vaga e excessiva de que encontrei meu lugar no mundo.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

A tentação de Santo Antão


Lábios deixam rastros de saliva entre a terceira e a quinta costela. Tremor de campânulas ao vento das palavras. A língua do poeta é uma língua sem papilas. O tato já não queima, o aroma já não inebria, o sal já não salga. No entanto, quando uma curva se insinuou debaixo do lençol da aridez, a poesia deu um salto no desconhecido. O poeta então adormeceu, liberto de toda ânsia.
(Salvador Dali - La tentation de Saint-Antoine)

Destino


Pão dos túneis que os vermes escavam no olvido. Larvas fervilhantes projetam o vir-a-ser de um presente sem sol. De repente, num ímpeto de ecolalia, calquei o pé na lama do esquecimento. Foi tão grande o esforço para retirá-lo que o sapato se integrou para sempre à maceração lenta do limo escorregadio. No dia seguinte, uma língua de mar levou minhas sandálias novas. Desde então caminho sobre espinhos, a túnica rasgada, os cabelos cobertos de cinza, purgando o pecado das bestas e expiando o dom de compartilhar a carne com meus irmãos.

Voz da rua


O ruído líquido dos pneus no asfalto fez meu pensamento penetrar as camadas do pavimento. Conheço esses estratos de pedras unidas por alcatrão e cálculo. Por baixo delas, jaz a terra avermelhada e depois o basalto negro, filho dileto do magma puro. Como um leão adormecido à sombra, saciado pelo cheiro do sangue da caça recente, um bólido anímico repousa entre a resina e as pedras. Os sensíveis são capazes de perceber suas vibrações invisíveis e de decifrar a linguagem dos subterrâneos. Mas como sacrifiquei uma vítima impura no altar da Urbe, já não sou mais um deles.

A Quadratura do Círculo


Ao valor inicial, reiterei a medida dos quadrados. Segurei a impetuosidade da reta que se retorcia caoticamente. Com esquadro e compasso, obriguei-a a fechar-se num círculo instável. Leito do inaudito. Olhei o poente. Àquela mesma hora, naquele edifício absurdo, alguém refazia os cálculos, enquanto meu coração contemplava o monólito da solidão.

Foto de eclipse solar, 2008.

De profundis clamavi


Das profundezas clamei e outras profundezas se abriram sob meus pés. Quando soou meio dia no campanário, perfilei meu exército de vontades mortas e ordenei o ataque. Seres disformes subiam pelas paredes na ânsia de aniquilar-se em Deus. Ao chegar à superfície, uma brutal chicotada de vento precipitou-me novamente no abismo. E desde então ranjo meus dentes apodrecidos pela calúnia e rôo minhas unhas aduncas, que nunca deixarão marcas roxas na carne doce dos herdeiros.
(Imagem: "De profundis clamavi" de Rubens Franco: http://www.rubensfranco.blogspot.com/)