sexta-feira, 12 de junho de 2009

Segmento de curva

Escritura ordem caos desordem se isso. Sinais externos remédios amontoados tarefas visão de fora. O que devo linha reta procrastinação. Eu está na platéia minha vida passa e eu nem aí estou. Acho concordo recordo com ele, não senhor minha vida me faz perder muito tempo de vida esforço coisas mãos dedos coração sexo pernas pés chão. 

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Por que as mães e os amores se vão em maio









Por que as mães e os amores se vão em maio

Quando o inverno se insinua e nuvens ligeiras

Percorrem o céu noturno e a falta essencial

Se revela na cama desfeita, no guarda-roupa vazio

Na toalha que pende e rescende ao último banho.

 

Por que a tristeza tem que embalar objetos

Recolher os restos,  conformar-se ao que não foi

E percorrer os cômodos  silenciosamente

À procura de vestígios de alguma presença

Que agora é apenas  memória e solidão.

 

Por que as mães e os amores se vão em maio

Quando o tempo nos lembra de que nada refaz

O percurso do possível  e fica apenas a imagem

Do último afago, do calor das mãos.  Miragem

A calar a falta em palavras que já não são.

15 de maio de 2009, 22:49h

Imagem: Melancolia, de Edvard Munch

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Santa Teresinha

A porta entreaberta deixa entrever apenas a fímbria do hábito marrom das carmelitas. No chão, aos pés da virgem, jaz uma fita, estampada com pequenas flores azuis sobre um leve fundo rosa. Uma ondulação tênue perpassa o corpo da fita e as florinhas parecem movimentar-se em uma superfície líquida. Adivinho, nesse ondular de lago calmo, os movimentos de Teresinha que, reclinada sobre a escrivaninha, compõe a história de sua alma. Imagino então os dedos rosados da mão direita pressionando a pena de ganso afiada, em cuja ponta reverbera o negrume da tinta. Vejo a pele translúcida dos dedos que, a cada esforço da pena sobre o papel, torna-se esbranquiçada pelo sangue que reflui. É assim que imagino o ato de escrever de Teresinha, sangue em fuga em uma madrugada alvacenta de atmosfera azul e rosa. Ali, um coração espinhado descobre a vocação do amor infundido em todas as coisas. Doutora em Amor, Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face escolhe tudo: não quer ser santa pela metade.

Imagem: Foto mortuária de Santa Teresa do Menino Jesus

segunda-feira, 30 de março de 2009

O Ciúme


   O vento assoviou às moscas e um enxame negro invadiu a transparência da tarde tórrida. Armei-me inutilmente com o punhal da indiferença. Sua lâmina  afiada fez sangrar a mão que o retinha. No tormento, lembrei-me da flecha preta da canção e das almas estiradas no curtume. Veio então assombrar-me a imagem de um corpo secando ao sol,  coberto de moscas burdonantes,  braços e pernas vazios de carne,  fisgados por cravos numa cruz em x. No meio dia esfuziante de luz, bem longe do Velho Chico, a fantasmagoria projetava na poeira do chão pedregoso uma sombra negra. Era meu ciúme.

Maria Bethania interpreta "O Ciúme" de Caetano Veloso:

http://www.youtube.com/watch?v=5gpNJ8hx558&eurl=http://www.orkut.com.br/FavoriteVideos%3Fuid%3D13095917144727534006&feature=player_embedded

sexta-feira, 27 de março de 2009

Apolo fazendo música com Jacinto e Ciparisso (d’après un souvenir de théâtre)


Nem fiquei nem parti. Apenas guardei o beijo que a atriz oferecia ao publico indiferente. Miserável que aceita o pão duro da rejeição, refiz em festa o ato ofertativo e vi, entre as colunatas e a escada, uma multidão de sátiros que invadia o saguão, em traje de gala, contidos como se acorressem a uma platéia sinfônica. À saída, dois ciprestes choravam ainda a morte do cervo sagrado. E Apolo fugiu apressado, entre os jacintos que sangravam à sua passagem, deixando um rastro vermelho na linha do horizonte. O beijo da atriz tornou-se uma pétala seca que sussurrava palidamente: os Deuses já não são!
Imagem: Apolo de Nadir Afonso

terça-feira, 24 de março de 2009

A Palavra e a Coisa


A noite não cairá hoje e o sol brilhará mais dois dias sobre a cidade santa. Meu avô usava chapéu de feltro e era conhecido como seu Nené. Seu Nené vagueava pelas veredas de cimetrole, enquanto eu engastava meus pés de vôo nas pegadas petrificadas do dinossauro. Não, não tô com vontade hoje, nem vem, vai...O colosso ria escondido sob o véu da antiguidade. Como poderei cortar mel com faca? Obstruíram a passagem entre a pitangueira e o muro verde de musgos ridentes. A padaria é logo ali e o senhor poderá descansar um pouco. Luz, luz, exclamou Lúcifer, quando seus pés tocaram o abismo. Mas a luz não se fez e restou esse hiato eterno entre a palavra e a coisa. (13/12/07)

Foto: Cemitério Nossa Senhora do Carmo - São Carlos.


sábado, 21 de março de 2009

Minas


Tomei a estrada de Minas hesitando entre a postura do viajante encantado e a angústia do doente que visita outro doente. O pó da estrada me fez perder o medo da terra e aceitei com volúpia o bolo de milho que me ofereciam no meio do nada. Seu amarelo vivo reapareceu à noite, quando  despontou no céu uma lua barriguda, grávida entre fiapos de nuvens. O coração de Minas me trouxe café quente e biscoito de polvilho e coberto de poeira e cansaço, adormeci como os minérios que jaziam sob meu leito, em solo que minha imaginação, empunhando a pá do mistério, escavou até o amanhecer. Quando o sol  se insinuou na colina, ofereci-lhe, para que contasse entre os seus raios, um revérbero de cristal, encontrado a trinta palmos de profundidade, no solo pedregoso do meu sono.
 (Sete Lagoas, 20/09/08; Foto: Céus de São Carlos, 02/09)