segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Solidão


As raposas têm sua cova,
as aves do céu seu ninho,
mas o filho do homem
não tem onde
reclinar
a cabeça?

Evangelho de São Lucas, 9, 58

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Domingo e ausência




Nuvens percorrem o céu como no dia em que partiste

O frio e a chuva perfazem o percurso de distância e água

Pesa sobre meu peito um bloco de tristeza e mágoa

Calo tua ausência em tudo o que é aparência e despiste.


Talvez seja apenas o começo e talvez seja demais

Do destino vislumbro o rosto por detrás da máscara

Os dias se sucederão no vazio de tua passagem áspera

Não sei explicar por que, mas aos domingos dói mais.

24/25 de agosto de 2009

Imagem: Edvard Munch, "Separação"

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Segmento de curva

Escritura ordem caos desordem se isso. Sinais externos remédios amontoados tarefas visão de fora. O que devo linha reta procrastinação. Eu está na platéia minha vida passa e eu nem aí estou. Acho concordo recordo com ele, não senhor minha vida me faz perder muito tempo de vida esforço coisas mãos dedos coração sexo pernas pés chão. 

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Por que as mães e os amores se vão em maio









Por que as mães e os amores se vão em maio

Quando o inverno se insinua e nuvens ligeiras

Percorrem o céu noturno e a falta essencial

Se revela na cama desfeita, no guarda-roupa vazio

Na toalha que pende e rescende ao último banho.

 

Por que a tristeza tem que embalar objetos

Recolher os restos,  conformar-se ao que não foi

E percorrer os cômodos  silenciosamente

À procura de vestígios de alguma presença

Que agora é apenas  memória e solidão.

 

Por que as mães e os amores se vão em maio

Quando o tempo nos lembra de que nada refaz

O percurso do possível  e fica apenas a imagem

Do último afago, do calor das mãos.  Miragem

A calar a falta em palavras que já não são.

15 de maio de 2009, 22:49h

Imagem: Melancolia, de Edvard Munch

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Santa Teresinha

A porta entreaberta deixa entrever apenas a fímbria do hábito marrom das carmelitas. No chão, aos pés da virgem, jaz uma fita, estampada com pequenas flores azuis sobre um leve fundo rosa. Uma ondulação tênue perpassa o corpo da fita e as florinhas parecem movimentar-se em uma superfície líquida. Adivinho, nesse ondular de lago calmo, os movimentos de Teresinha que, reclinada sobre a escrivaninha, compõe a história de sua alma. Imagino então os dedos rosados da mão direita pressionando a pena de ganso afiada, em cuja ponta reverbera o negrume da tinta. Vejo a pele translúcida dos dedos que, a cada esforço da pena sobre o papel, torna-se esbranquiçada pelo sangue que reflui. É assim que imagino o ato de escrever de Teresinha, sangue em fuga em uma madrugada alvacenta de atmosfera azul e rosa. Ali, um coração espinhado descobre a vocação do amor infundido em todas as coisas. Doutora em Amor, Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face escolhe tudo: não quer ser santa pela metade.

Imagem: Foto mortuária de Santa Teresa do Menino Jesus

segunda-feira, 30 de março de 2009

O Ciúme


   O vento assoviou às moscas e um enxame negro invadiu a transparência da tarde tórrida. Armei-me inutilmente com o punhal da indiferença. Sua lâmina  afiada fez sangrar a mão que o retinha. No tormento, lembrei-me da flecha preta da canção e das almas estiradas no curtume. Veio então assombrar-me a imagem de um corpo secando ao sol,  coberto de moscas burdonantes,  braços e pernas vazios de carne,  fisgados por cravos numa cruz em x. No meio dia esfuziante de luz, bem longe do Velho Chico, a fantasmagoria projetava na poeira do chão pedregoso uma sombra negra. Era meu ciúme.

Maria Bethania interpreta "O Ciúme" de Caetano Veloso:

http://www.youtube.com/watch?v=5gpNJ8hx558&eurl=http://www.orkut.com.br/FavoriteVideos%3Fuid%3D13095917144727534006&feature=player_embedded

sexta-feira, 27 de março de 2009

Apolo fazendo música com Jacinto e Ciparisso (d’après un souvenir de théâtre)


Nem fiquei nem parti. Apenas guardei o beijo que a atriz oferecia ao publico indiferente. Miserável que aceita o pão duro da rejeição, refiz em festa o ato ofertativo e vi, entre as colunatas e a escada, uma multidão de sátiros que invadia o saguão, em traje de gala, contidos como se acorressem a uma platéia sinfônica. À saída, dois ciprestes choravam ainda a morte do cervo sagrado. E Apolo fugiu apressado, entre os jacintos que sangravam à sua passagem, deixando um rastro vermelho na linha do horizonte. O beijo da atriz tornou-se uma pétala seca que sussurrava palidamente: os Deuses já não são!
Imagem: Apolo de Nadir Afonso

terça-feira, 24 de março de 2009

A Palavra e a Coisa


A noite não cairá hoje e o sol brilhará mais dois dias sobre a cidade santa. Meu avô usava chapéu de feltro e era conhecido como seu Nené. Seu Nené vagueava pelas veredas de cimetrole, enquanto eu engastava meus pés de vôo nas pegadas petrificadas do dinossauro. Não, não tô com vontade hoje, nem vem, vai...O colosso ria escondido sob o véu da antiguidade. Como poderei cortar mel com faca? Obstruíram a passagem entre a pitangueira e o muro verde de musgos ridentes. A padaria é logo ali e o senhor poderá descansar um pouco. Luz, luz, exclamou Lúcifer, quando seus pés tocaram o abismo. Mas a luz não se fez e restou esse hiato eterno entre a palavra e a coisa. (13/12/07)

Foto: Cemitério Nossa Senhora do Carmo - São Carlos.


sábado, 21 de março de 2009

Minas


Tomei a estrada de Minas hesitando entre a postura do viajante encantado e a angústia do doente que visita outro doente. O pó da estrada me fez perder o medo da terra e aceitei com volúpia o bolo de milho que me ofereciam no meio do nada. Seu amarelo vivo reapareceu à noite, quando  despontou no céu uma lua barriguda, grávida entre fiapos de nuvens. O coração de Minas me trouxe café quente e biscoito de polvilho e coberto de poeira e cansaço, adormeci como os minérios que jaziam sob meu leito, em solo que minha imaginação, empunhando a pá do mistério, escavou até o amanhecer. Quando o sol  se insinuou na colina, ofereci-lhe, para que contasse entre os seus raios, um revérbero de cristal, encontrado a trinta palmos de profundidade, no solo pedregoso do meu sono.
 (Sete Lagoas, 20/09/08; Foto: Céus de São Carlos, 02/09)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Lendo Gabriel Marcel ao teu lado


Enclave, mas enclave movediço,
Uma criança brinca em teus olhos interrogativos
Vulnerável, na clausura viva da ferida,
entre o silêncio e um leve esgar de lábios.
O não dito grita a contradição de tudo,
E o melhor de nós não nos pertence.
O gesto da mão que pousa no jeans escuro,
Ao abrigo da crítica e da dureza,
Grita a falta que nos arrasta
À região onde gravita um certo eu
Que julgamos habitar em nós.
Mas quando a noite se insinua na paisagem,
Teu olhar, em rápida mirada,
Fixa o parapeito da janela.
Vida Viagem Vaga.

(Foto de Gabriel Marcel, à qual apliquei um efeito de luz)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Fraqueza


Onde se refugiaram as algas neste mar de escolhos? Em que túnel escuro, margem estelar do esquecimento, vociferaram as palavras que não ouvi? Quem pôde oferecer um sacrifício incruento no leito em que fui gerado? Nunca pude contemplar o que se formava em mim quando o turbilhão de água e sonho girou em sentido anti-horário. Em razão disso, trago as mãos revestidas de uma luva de pedra, inanição do inane.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Contrição


A grande rocha verteu seu canto de água e limo. Ajoelhei-me diante do murmúrio inaugural e toquei a superfície da água fria. Um relâmpago verde percorreu minha espinha e fixou meus pés na pele do solo de folhas mortas. Transito no transitório, mastigo o barro de que sou feito. Num átimo tenho a impressão vaga e excessiva de que encontrei meu lugar no mundo.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

A tentação de Santo Antão


Lábios deixam rastros de saliva entre a terceira e a quinta costela. Tremor de campânulas ao vento das palavras. A língua do poeta é uma língua sem papilas. O tato já não queima, o aroma já não inebria, o sal já não salga. No entanto, quando uma curva se insinuou debaixo do lençol da aridez, a poesia deu um salto no desconhecido. O poeta então adormeceu, liberto de toda ânsia.
(Salvador Dali - La tentation de Saint-Antoine)

Destino


Pão dos túneis que os vermes escavam no olvido. Larvas fervilhantes projetam o vir-a-ser de um presente sem sol. De repente, num ímpeto de ecolalia, calquei o pé na lama do esquecimento. Foi tão grande o esforço para retirá-lo que o sapato se integrou para sempre à maceração lenta do limo escorregadio. No dia seguinte, uma língua de mar levou minhas sandálias novas. Desde então caminho sobre espinhos, a túnica rasgada, os cabelos cobertos de cinza, purgando o pecado das bestas e expiando o dom de compartilhar a carne com meus irmãos.

Voz da rua


O ruído líquido dos pneus no asfalto fez meu pensamento penetrar as camadas do pavimento. Conheço esses estratos de pedras unidas por alcatrão e cálculo. Por baixo delas, jaz a terra avermelhada e depois o basalto negro, filho dileto do magma puro. Como um leão adormecido à sombra, saciado pelo cheiro do sangue da caça recente, um bólido anímico repousa entre a resina e as pedras. Os sensíveis são capazes de perceber suas vibrações invisíveis e de decifrar a linguagem dos subterrâneos. Mas como sacrifiquei uma vítima impura no altar da Urbe, já não sou mais um deles.

A Quadratura do Círculo


Ao valor inicial, reiterei a medida dos quadrados. Segurei a impetuosidade da reta que se retorcia caoticamente. Com esquadro e compasso, obriguei-a a fechar-se num círculo instável. Leito do inaudito. Olhei o poente. Àquela mesma hora, naquele edifício absurdo, alguém refazia os cálculos, enquanto meu coração contemplava o monólito da solidão.

Foto de eclipse solar, 2008.

De profundis clamavi


Das profundezas clamei e outras profundezas se abriram sob meus pés. Quando soou meio dia no campanário, perfilei meu exército de vontades mortas e ordenei o ataque. Seres disformes subiam pelas paredes na ânsia de aniquilar-se em Deus. Ao chegar à superfície, uma brutal chicotada de vento precipitou-me novamente no abismo. E desde então ranjo meus dentes apodrecidos pela calúnia e rôo minhas unhas aduncas, que nunca deixarão marcas roxas na carne doce dos herdeiros.
(Imagem: "De profundis clamavi" de Rubens Franco: http://www.rubensfranco.blogspot.com/)

sábado, 31 de janeiro de 2009

Com cacos de telha, raspei o pus das feridas. Quando meus filhos foram engolidos pelo desastre, ergui o punho num gesto de júbilo. Meus bens foram distribuídos entre aqueles que aviltaram minha memória. Meus ossos repousaram junto às ossadas dos novilhos devorados pelos lobos. Então, quando a fímbria do manto divino tocou meu nome sonoro, Deus se lembrou de minha justiça e me sepultou para sempre na região sombria da incompreensão. (09/08/05)

(ilustração para o Livro de Jó - William Blake)

Ninhada



A roda inexorável refez o ciclo de poeira. No seu centro metálico, trovões goravam os ovos do acaso. Desviei meu olhar do espetáculo da consumação de uma luz incapaz de projetar sombra. Quando ergui novamente os olhos, uma espécie de ó indeciso pairava sobre o pesadelo esquecido. Voltei a casa, inebriado ainda pelo cheiro de bosta de galinha.

Basalto


Pedras pretas sob meus pés de menino. Quando morriam aquelas pedras exalavam uma poeira amarelada e se deixavam decompor ao sol, num êxtase avermelhado. Eu menino não compreendia ainda como cresciam ali o café e a cana.

O Túmulo

Toquei o caos com um dedo trêmulo
Ouvi o gemido da derrocada de tudo
Lambi no sabão a poeira das estrelas extintas
Meti meu dedo no funil das esferas turbilhonantes
Um signo indecifrável foi gravado em minha fronte pensa
Engoli as geleiras quando se lançavam do pólo
Nos cantos dos meus lábios, o gelo se liquefez
Pisoteei meus olhos numa aflição de cavalo domado
Amarrei meus sapatos com cordas de um violino mudo
Adocei meu chá com o pó dos antepassados
Desdichado, meu olhar turvou-se ao sol da melancolia
Mas ainda não lapidei o túmulo de meu pai.
(Melancholia - Albrecht Dürer)

Experimento

Espáduas de neblina sobre a luz de uma conveniência secular. Leis da perspectiva. Rebobino o fio invisível de um gerador de espantos. Ao fazer girar o ímã dos propósitos inabaláveis, um tremor de esfera percorre meu corpo de aço polido. Enfim fixo o influxo do ixium. Estou nu na luz que baixa e me refunde.

Pedra e Magma



Quando? indago à tarde exaustiva. E o eco do delírio me responde com outra indagação não menos absurda: quem? Olho meus dedos resignados. tempo refolhado em tristeza esparsa. Meus pés avançam nas pedras da calçada, magma frio. Penetro na bruma, sua carne é memória e excitação. Uma palavra aflora nos meus lábios ressequidos: vórtice.

Escape



Na voragem dos dias, o infinito nunca é o presente. Repara na areia absurda que os relógios esquecidos depositam no fundo das gavetas. A correição das horas é um sinal.