
As raposas têm sua cova,
O frio e a chuva perfazem o percurso de distância e água
Pesa sobre meu peito um bloco de tristeza e mágoa
Calo tua ausência em tudo o que é aparência e despiste.
Talvez seja apenas o começo e talvez seja demais
Do destino vislumbro o rosto por detrás da máscara
Os dias se sucederão no vazio de tua passagem áspera
Não sei explicar por que, mas aos domingos dói mais.
24/25 de agosto de 2009
Imagem: Edvard Munch, "Separação"


Por que as mães e os amores se vão em maio
Quando o inverno se insinua e nuvens ligeiras
Percorrem o céu noturno e a falta essencial
Se revela na cama desfeita, no guarda-roupa vazio
Na toalha que pende e rescende ao último banho.
Por que a tristeza tem que embalar objetos
Recolher os restos, conformar-se ao que não foi
E percorrer os cômodos silenciosamente
À procura de vestígios de alguma presença
Que agora é apenas memória e solidão.
Por que as mães e os amores se vão em maio
Quando o tempo nos lembra de que nada refaz
O percurso do possível e fica apenas a imagem
Do último afago, do calor das mãos. Miragem
A calar a falta em palavras que já não são.
15 de maio de 2009, 22:49h
Imagem: Melancolia, de Edvard Munch

A porta entreaberta deixa entrever apenas a fímbria do hábito marrom das carmelitas. No chão, aos pés da virgem, jaz uma fita, estampada com pequenas flores azuis sobre um leve fundo rosa. Uma ondulação tênue perpassa o corpo da fita e as florinhas parecem movimentar-se em uma superfície líquida. Adivinho, nesse ondular de lago calmo, os movimentos de Teresinha que, reclinada sobre a escrivaninha, compõe a história de sua alma. Imagino então os dedos rosados da mão direita pressionando a pena de ganso afiada, em cuja ponta reverbera o negrume da tinta. Vejo a pele translúcida dos dedos que, a cada esforço da pena sobre o papel, torna-se esbranquiçada pelo sangue que reflui. É assim que imagino o ato de escrever de Teresinha, sangue em fuga em uma madrugada alvacenta de atmosfera azul e rosa. Ali, um coração espinhado descobre a vocação do amor infundido em todas as coisas. Doutora em Amor, Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face escolhe tudo: não quer ser santa pela metade.
Imagem: Foto mortuária de Santa Teresa do Menino Jesus

O vento assoviou às moscas e um enxame negro invadiu a transparência da tarde tórrida. Armei-me inutilmente com o punhal da indiferença. Sua lâmina afiada fez sangrar a mão que o retinha. No tormento, lembrei-me da flecha preta da canção e das almas estiradas no curtume. Veio então assombrar-me a imagem de um corpo secando ao sol, coberto de moscas burdonantes, braços e pernas vazios de carne, fisgados por cravos numa cruz em x. No meio dia esfuziante de luz, bem longe do Velho Chico, a fantasmagoria projetava na poeira do chão pedregoso uma sombra negra. Era meu ciúme.

A noite não cairá hoje e o sol brilhará mais dois dias sobre a cidade santa. Meu avô usava chapéu de feltro e era conhecido como seu Nené. Seu Nené vagueava pelas veredas de cimetrole, enquanto eu engastava meus pés de vôo nas pegadas petrificadas do dinossauro. Não, não tô com vontade hoje, nem vem, vai...O colosso ria escondido sob o véu da antiguidade. Como poderei cortar mel com faca? Obstruíram a passagem entre a pitangueira e o muro verde de musgos ridentes. A padaria é logo ali e o senhor poderá descansar um pouco. Luz, luz, exclamou Lúcifer, quando seus pés tocaram o abismo. Mas a luz não se fez e restou esse hiato eterno entre a palavra e a coisa. (13/12/07)
Foto: Cemitério Nossa Senhora do Carmo - São Carlos.









Espáduas de neblina sobre a luz de uma conveniência secular. Leis da perspectiva. Rebobino o fio invisível de um gerador de espantos. Ao fazer girar o ímã dos propósitos inabaláveis, um tremor de esfera percorre meu corpo de aço polido. Enfim fixo o influxo do ixium. Estou nu na luz que baixa e me refunde.